Segunda, 27 de maio de 2018
67 999069758
Economia

12/01/2018 ás 13h16

151

Alessandro Pereira Dias

Maracaju / MS

Desafio Fintech
Testamos a NuConta, a conta digital do Nubank
Desafio Fintech
nubank
Recentemente o Nubank anunciou uma novidade sobre a qual já se especulava há semanas: o lançamento da NuConta, sua conta digital. O anúncio teve direito a evento para clientes e até a transmissão ao vivo pelo Facebook.

Além da já esperada isenção de tarifa para movimentar essa conta, a grande novidade é que ela será também uma forma de investimento de baixo risco.

Como a Magnetis é uma fintech de investimentos - e também por causa do Desafio Fintech -, nos dias seguintes ao evento muitos colegas perguntaram minha opinião sobre a NuConta e sobre como, tecnicamente, ela iria funcionar.

(Para quem não conhece, o Desafio Fintech é uma série de conteúdos em que eu testo serviços de fintechs de várias áreas).

Alguns pontos sobre a NuConta não ficaram claros na apresentação inicial. Foi aí que resolvi fazer o teste (com a ajuda do nosso designer, Lucas Cardozo) e buscar mais informações (com ajuda da nossa redatora Malena Oliveira). Trabalho de equipe!

Já adianto para você que algumas questões bem complexas surgiram no meio do caminho. Por isso, consultamos o Banco Central, um economista especializado em setor bancário e o próprio Nubank. Então, vamos começar.

Como eu tive acesso à NuConta
Por enquanto, a NuConta está sendo liberada aos poucos para quem já é cliente Nubank, mas a ideia é que ela esteja à disposição de qualquer pessoa no primeiro trimestre de 2018.

O acesso, nos mesmos moldes do cartão de crédito roxo, é concedido por meio de um convite.

Esse convite está sendo enviado pela equipe do Nubank aos usuários testadores de novidades (beta testers), uma fase comum de desenvolvimento de produto que serve para detectar e resolver possíveis falhas.

O nosso designer Lucas é um beta tester, ou seja, conseguiu a liberação para usar a NuConta.

Veja a seguir como são os primeiros passos para a abertura da conta e o que acontece após a primeira transferência.

CONVITEDADOS DA CONTATRANSFERÊNCIARENDIMENTO
O convite da NuConta é enviado por meio do aplicativo do Nubank.


Depois de clicar no link do convite para habilitar a NuConta, o passo seguinte é uma tela com um QR Code e dados de agência e conta para fazer uma transferência.

Conforme anunciado, não será possível fazer depósitos em dinheiro ou por meio de boleto bancário na NuConta. A única forma de mandar dinheiro para ela é por meio de uma transferência a partir de outra conta bancária (TED).

E aqui, um detalhe importante: o Nubank não cobra por essas transferências. Por exemplo: se você quiser mandar dinheiro da sua NuConta para qualquer conta em outro banco, não vai pagar tarifa por essa operação.

Mas o contrário - mandar dinheiro do seu banco para o Nubank - depende da política que cada banco adota ao fazer uma TED.

Há contas bancárias que, por exemplo, permitem um número limitado de TEDs gratuitas por mês. Há outras que permitem transferências gratuitas somente por app de celular ou net banking.

Como assim uma conta que é um investimento?
A primeira transferência demorou apenas alguns minutos para ser compensada. Daí, chegamos a uma tela que mostra o saldo da NuConta, o histórico de depósitos e saques e os rendimentos.

Ao acessar o menu "Posição Detalhada", que fica na parte inferior da tela, notamos que o dinheiro foi aplicado em um investimento que promete um retorno de 100% do CDI e tem um vencimento programado para daqui a dois anos, em outubro de 2019.

Segundo o Nubank, esse investimento é de baixo risco porque é feito em títulos públicos (que rendem diariamente) e pode ser sacado a qualquer momento.


A partir daqui, porém, começaram a aparecer algumas perguntas.

Em que tipo de investimento o dinheiro da NuConta está aplicado? O registro desse investimento é feito no nome do cliente?
Esse investimento terá Imposto de Renda (IR) ou Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)?
Sabemos que uma taxa de 1% será cobrada por esse investimento, mas ela incide sobre todo o valor aplicado? Ou será válida apenas sobre o rendimento da aplicação?
As respostas que eu tive ao consultar o próprio Nubank foram:

A aplicação financeira é feita pelo Nubank em títulos públicos atrelados à Selic (Tesouro Selic, a antiga LFT). Essa aplicação, diferente de quem aplica no Tesouro Direto, não é registrada em nome do cliente. É uma aplicação feita diretamente pelo Nubank no Tesouro Nacional enquanto investidor institucional. Por isso, não há cobrança daquela taxa de custódia obrigatória de 0,3% ao ano, como acontece com o investimento no Tesouro Direto;
A tributação desse investimento será feita no momento do saque e vai obedecer às regras de IR e IOF tal como outras aplicações em renda fixa. Trocando em miúdos: tabela regressiva do Imposto de Renda e IOF nos casos de saques feitos antes de 30 dias da data da aplicação;
A taxa de 1% será cobrada sobre o rendimento da aplicação, e não sobre o valor depositado.

Usando a NuConta para gestão de pequenos valores
Segundo o Nubank, a ideia é que a NuConta elimine a complexidade das aplicações financeiras e seja uma forma de "tomar uma decisão de investimento pelo cliente".

Aqui, vale destacar que esse mecanismo pode ajudar e muito as pessoas que não têm tanto conhecimento sobre o tema ou não sabem onde investir.

A NuConta poderia ser usada, por exemplo, para a gestão do dinheiro do mês ou para manter uma reserva de emergência, o que é importante em caso de algum imprevisto.

Em outros países, como Estados Unidos e Reino Unido, esse tipo de conta já existe há mais tempo e é chamado de Savings Account.

Porém, para investimentos com foco em prazos maiores (por exemplo: comprar uma casa, viajar daqui a dois anos, aposentadoria), há outros produtos financeiros no mercado que oferecem a possibilidade de rendimentos maiores.

Para esse tipo de demanda de médio ou longo prazos, a solução que oferecemos na Magnetis é ideal, pois trabalhamos com investimentos diversificados e custo baixo.

E o risco de deixar o dinheiro na NuConta?
Outro ponto importante a considerar - e isso serve para qualquer investimento - é o risco de deixar o dinheiro aplicado na NuConta.

Os recursos depositados não ficam registrados no nome do cliente e não há proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) - que é o mecanismo que assegura a devolução do dinheiro dos clientes de um banco em caso de falência até o limite de R$ 250 mil por CPF.

Por outro lado, a NuConta é uma conta de pagamentos e possui características diferentes das contas correntes tradicionais (vou falar disso mais adiante).

O Nubank não pode misturar o dinheiro dos depósitos de clientes aos seus próprios recursos, ainda que esse dinheiro não seja aplicado em títulos públicos em nome desses clientes.

Esse dinheiro também não pode ser usado para pagar dívidas da instituição em caso de falência e nem pode ser congelado por qualquer ação judicial, de acordo com o Banco Central.

E se compararmos a NuConta com outras aplicações?
Uma pessoa tem R$ 10 mil disponíveis e não sabe como investir. Também não tem certeza se pode deixar o dinheiro aplicado por muito tempo. Ela resolve, então, deixar o valor depositado na NuConta.

Parâmetros gerais da simulação

Valor aplicado: R$ 10 mil
Prazo: 1 ano
Imposto de Renda: 17,5%
Selic acumulada: 7% no ano​
Depois de um ano, um possível resultado pode ser o seguinte, já comparando também com outras aplicações:

Tesouro Direto

Total bruto

R$ 10.700,00

Total após IR e taxas**

R$ 10.557,75

NuConta

Total bruto

R$ 10.700,00

Total após IR e taxas***

R$ 10.571,72

CDB (100% do CDI)

Total bruto

R$ 10.700,00

Total após IR

R$ 10.577,50

CDB (110% do CDI)

Total bruto

R$ 10.772,63

Total após IR

R$ 10.637,42

Poupança (nova regra****)

Imposto de Renda

Não há

Total

R$ 10.485,03

*Para fazer os cálculos, utilizei uma projeção de 7% para a Selic acumulada em um ano com base no relatório Mercado Secundário de Títulos Públicos, da Anbima.

**O resultado está líquido da taxa de custódia de 0,3% sobre o valor do investimento no Tesouro Direto.

***O resultado está líquido da taxa de 1% sobre o rendimento do valor depositado na NuConta.

****Quando a Selic está abaixo de 8,5%, a poupança rende 70% dessa taxa, mais a Taxa Refencial (TR). Entenda por que o rendimento da poupança é ruim.

Você vai notar que o rendimento da NuConta é maior que o do Tesouro Selic. Isso porque a taxa de 1% da NuConta, segundo o Nubank, incide somente sobre o rendimento da aplicação.

Já no caso do Tesouro Selic - por meio do Tesouro Direto -, há uma taxa de custódia de 0,3% ao ano que é cobrada sobre o valor total dos títulos.

Por sua vez, um CDB que pague a partir de 100% do CDI já supera o resultado final da NuConta, mesmo após o pagamento do Imposto de Renda. Por outro lado, os CDBs com melhor rentabilidade geralmente não têm liquidez diária.

Resumindo:

Enquanto a NuConta pode ser uma boa opção para a gestão do dia a dia ou para o rendimento de pequenos valores, existem melhores alternativas para investimentos de longo prazo, como para aposentadoria ou compra da casa própria.

Se você já está construindo seu patrimônio de longo prazo, recomendamos sempre montar uma carteira de investimentos bem diversificada e personalizada para seus objetivos. Essa é a melhor forma de maximizar seu retorno, mantendo o risco adequado ao seu perfil.

Aqui na Magnetis, por exemplo, trabalhamos com diversificação de investimentos e opções para variados perfis (dos mais conservadores aos mais arrojados). Isso sempre considerando os objetivos de médio e longo prazos dos nossos clientes.

Como montamos carteiras diversificadas, elas acabam sendo mais resistentes a mudanças na economia e capturam com mais segurança os efeitos de momentos positivos. Assim, o melhor resultado aparece no longo prazo.

Leia também: Quanto renderam as Carteiras Magnetis no 3° trimestre de 2017​

Não dá para sacar dinheiro direto da NuConta
Um detalhe pode ser desfavorável para a rentabilidade da aplicação na NuConta: o saque.

Uma das principais diferenças entre a NuConta e as outras opções existentes no mercado é que ela é uma conta de pagamento. Por isso, tem algumas particularidades.

Assim como não é possível depositar dinheiro direto na NuConta, também não é possível sacar da maneira tradicional. Além disso, segundo o Nubank, não há planos de um cartão de débito para essa conta.

Então, quem quiser retirar dinheiro da NuConta terá de transferir os recursos para outra conta em outro banco e só então sacar (por essa transferência o Nubank não cobra taxa). O próprio Nubank não recomenda que seus usuários fechem as contas em outros bancos.

Outra opção é fazer um saque via cartão de crédito, uma vez que a NuConta está atrelada ao cartão Nubank. Apesar de o Nubank não cobrar tarifa por esse saque, ainda assim incidem alguns encargos:

Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 0,38%, mais 0,0082% ao dia (limitado a 3%), sobre o valor sacado;
Tarifa do terminal eletrônico, que varia e é informada no momento do saque.
Logo, o imposto e a taxa pagos por esse saque afetam o rendimento do dinheiro aplicado na NuConta.

Isso tudo porque o Nubank não é um banco. A empresa tenta obter a licença há dois anos (!!!), um processo que depende da aprovação do Banco Central. Por enquanto, pode operar apenas como instituição de pagamento.

A principal diferença é que, ao contrário de um banco, uma instituição de pagamento não pode conceder empréstimos e operar uma conta-corrente tradicional, apenas contas de pagamento.

Segundo o Banco Central, essas contas podem ser pré-pagas - o cliente envia dinheiro para elas de modo a fazer pagamentos no futuro. Nessa definição se encaixa a NuConta.

As contas de pagamento também pode ser pós-paga - a própria abertura de um limite para gastos com cartão de crédito é um exemplo. Sacou a referência?

Um caminho para a inclusão
A Malena, aqui da Magnetis, conversou com o Roberto Luis Troster, que foi economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), para entender o que esse movimento do Nubank significa para o Brasil.

Ele mencionou que iniciativas como a NuConta podem facilitar a relação das pessoas com o sistema bancário e ajudá-las a dar os primeiros passos no mundo dos investimentos.

Troster mencionou que em países como Índia e Quênia esse processo de inclusão financeira 100% digital está mais avançado.

"A Índia, por exemplo, já estuda abolir o papel-moeda. No Quênia, a população passou a ter acesso ao sistema financeiro pelo celular, sem a necessidade de passar pelo banco físico."

Voltando ao Brasil, a NuConta chega como uma boa opção para gerenciar pagamentos e gastos do dia a dia e - de quebra - garantindo um rendimento sobre o saldo em conta.

Mas se você já está investindo para aumentar seu patrimônio no longo prazo (ou quer começar a fazer isso), a nossa recomendação é sempre montar uma carteira diversificada e personalizada para seus objetivos.

FONTE: JP

O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos o direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas. A qualquer tempo, poderemos cancelar o sistema de comentários sem necessidade de nenhum aviso prévio aos usuários e/ou a terceiros.
Comentários

0 comentários

Veja também
Economia & Negócios

Economia & Negócios

Blog/coluna Tudo sobre economia e negócios.
Mais lidas
© Copyright 2018 :: Todos os direitos reservados
Site desenvolvido pela Lenium